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segunda-feira, 12 de novembro de 2012

A Marca - Conto


A MARCA
Um conto sobre Dragões.

Quando nasci meu corpo tinha uma marca vermelha, parecida com uma serpente fina. Começava em minhas costelas do lado direito, e estendia-se em curvas sinuosas, por trás nas costas até chegar ao ombro do lado esquerdo. Meu nome é Olivia Drache, e essa marca selou meu destino.
Meu pai ficou imensamente feliz, ao ser presenteado com a honra de ter uma filha marcada, ele sabia do meu futuro. Minha mãe chorou por dias, pois não queria aquela honra, sabia o que a marca significava, sabia que teria que me deixar quando completasse a idade de dez anos, ela também sabia do meu futuro.
A criança marcada era uma das escolhidas pelos Deuses de Luz a serem controladoras dos avatares de dragões. Todas as marcas eram semelhantes, uma linha vermelha traçada nas costas em curvas, porém todas as outras começavam do lado esquerdo e terminavam do lado direito do corpo da criança, a minha era o contrário.
O controle dos avatares era puramente mental. A alma da escolhida deixava o corpo humano e incorporava no corpo dos dragões. Nenhum dragão era igual ao outro fisicamente, e como parte de suas características, alguns podiam cuspir fogo e outros gelo.
Os corpos dos dragões ainda adormecidos repousavam em uma caverna subterrânea, nunca se descobriu de onde eles vieram e nem como foram parar naquele lugar, e uma vez a cada cinco anos um grupo de estudantes era selecionado, com base em sua evolução no aprendizado, para tentar despertar o seu avatar. Eu estava entre os escolhidos daquele ano.
Quando uma marcada estivesse pronta para fazer sua primeira incorporação, depois de estudar, por muito tempo em uma escola especializada sobre essas criaturas, sobre seus dons e aprender a como sair do seu próprio corpo, ela era encaminhada para a caverna e procurava entre os corpos dos dragões adormecidos, qual deles seria seu avatar. Era uma conexão instantânea, os dragões estavam em uma espécie de membrana grossa, lisa e opaca, chamados de “pedras dracon”, e era impossível definir sua forma, sua cor e nem mesmo suas habilidades.
Os casulos que guardavam os dragões repousavam em fileiras mal organizadas que, se visto de cima do grande salão que os acolhia, parecia um labirinto circular. Aos pares íamos andando aleatoriamente e vez ou outra sentíamos uma energia que nos incitava a tocar na membrana grossa, que envolvia os dragões, sobre os olhares atentos dos pais e do instrutor de cada um e que os seguiam de perto. Quando a conexão entre os avatares e o ser humano era feita, imediatamente o corpo do jovem caia ao chão, e os instrutores e pais desse jovem corriam para resgatar o corpo inerte, enquanto o avatar despertava, com a alma do jovem incorporada, e passavam pelo processo simbólico de nascer.
A consciência, a mente, ou alma do jovem deixava o corpo e assumia o corpo do avatar dragão.
O grupo com média de vinte jovens ia aos poucos sendo retirados pelos instrutores, enquanto os dragões despertavam e esticavam suas asas, forçando os músculos e nervos endurecidos pelo repouso começarem a trabalhar. Com passos desajeitados os dragões iam um a um, saindo da caverna.
Restavam poucos agora, e eu estava entre eles. Não conseguia me decidir sobre qual casulo tocar. Meu instrutor, Andreo, que fora designado a mim, desde o primeiro dia que entrei na escola, e que cuidava do meu aprendizado emocional e evolutivo, aproximou-se e percebendo o meu desespero e indecisão, postou-se em minha frente colocando as duas mãos sobre meus ombros e de maneira gentil e carinhosa me disse:
— Olivia, você deve sentir a energia do avatar. Ele está destinado á você. Muitos que estão aqui nunca despertaram, porque ou os humanos destinados a eles ainda não nasceram, ou se nasceram e devido a problemas alheios a nossa vontade vieram a falecer.
— Estou confusa Andreo. A energia me puxa para todos eles, mas quando chego perto de qualquer “pedra dracon” algo me diz que não é essa.
Andreo olhou-me com os olhos arregalados, como se algo que eu tivesse dito fosse surpreendente, algumas vezes ele me olhava assim, como se algo que tivesse falado ou feito fosse diferente do esperado.
— Feche os olhos, lembra-se dos exercícios de concentração e relaxamento? – sua expressão mudara de surpresa para expectativa, ele desviou o olhar por um momento para alguns outros instrutores, como se lhes chama-se a atenção.
— Sim – concordei fechando os olhos.
— Faça-os então.
Andreo tirou uma das mãos do meu ombro e contornou meu corpo, indo parar atrás de mim e voltou a encostar a mão no ombro que estava vazio.
— Relaxe e sinta a energia, existem muitas, em várias intensidades, mas uma vai se destacar, essa será a energia que você deve seguir. – ele falava vagarosamente atrás de mim, forçando minha concentração no tom de sua voz.
Eram muitas as energias, fortes e intensas, que pulsavam como um coração latente. Essas energias me acertavam de todos os lados, me puxando, chamando-me. Então eu senti. Entre todas elas uma se destacou, quando consegui separá-la das outras, se tornou tão intensa e tão necessária para mim como o ar que respirava, minha necessidade de tocá-la era tão grande e insuportável que abri os olhos, voltando meu corpo para o centro do labirinto das pedras, onde a energia estava.
Andreo, que ainda segurava meus ombros soltou um suspiro de expectativa como se soubesse o que eu queria e para onde deveria ir, ao mesmo tempo apertou levemente as mãos sobre meus ombros e incitou-me:
— Vá!
Não olhei para trás, mas e percepção me mostrava que além de meus pais e meu instrutor, algumas outras pessoas nos seguiam. Caminhei entre as pedras dracon, tentando manter uma linha reta, passava por elas e cada uma emanava sua força me puxando. As ignorei, eu buscava o centro, a poderosa e viciante energia me chamava para lá.
Quando cheguei ao cerne, uma grande pedra se destacava das demais. Estava no núcleo do labirinto e sua membrana escura era rugosa como se fosse cascalho quebrado. Por instantes uma alegria divina tomou meu peito, tão intensa que transbordou por meus olhos em forma de lágrimas. Voltei à cabeça para trás e busquei o olhar do meu instrutor, eu sabia que era aquela, sentia em meu íntimo que pertencia a ela, e ela a mim. Mas também sabia de sua história.
Aquela pedra dracon, era o centro exato de todas as outras. Apenas três vezes, outros jovens marcados tocaram-na, e quando isso aconteceu a pedra absorveu suas almas, como deveria ser, porém o avatar dragão não nasceu e os corpos dos jovens ficaram adormecidos desde então, eram os chamados “Os Três Sonhos”, eles estavam num dos salões da grande escola, adormecidos em cilindros redondos de cristal. Não envelheciam e nem acordavam.
Andreo aproximou-se um pouco mais e perguntou-me:
— Tem certeza que é esta? – expectativa, ansiedade e deslumbramento estampavam suas feições numa mistura uniforme.
— Sim, tenho certeza, mas estou com medo. – olhei para ele e depois para meus pais, que tinham a face mortificada em expressões que me eram impossíveis definir.
— Olivia você sabe a história dessa pedra, ela é especial, e só se abrirá quando o humano certo vier até ela – ele falava pausadamente obrigando-me a absorver e compreender cada palavra, - Você sabe o que acontecerá se você não for a marcada destinada a ela não sabe?
— Eu sei – lembrei-me dos Três Sonhos no cilindro de cristal.
— Então de tudo o que lhe ensinei Olivia, é nesse momento que não tenho nenhuma resposta para sua dúvida. A decisão é sua, somente você pode escolher e aceitar as consequências de sua escolha.
Ele colocou a mão sobre meu maxilar, e levantou meu rosto. Vi sentimentos de medo e ansiedade obscurecidos pelo negro profundo de seu olhar. Após alguns instantes daquele olhar profundo ele continuou:
— Você sabe que se não quiser tentar ainda sim terá seu avatar dragão, você mesma disse que sentiu outras energias, correto?
— Sim, senti muitas delas, algumas me chamavam mais e outras menos. – respondi concordando e entendendo onde ele queria chegar.
— E você é uma marcada Olivia, então seu destino é comandar um avatar dragão, faça sua escolha, e qual seja sua decisão estarei com você, apoiando-a.
Meneei a cabeça para cima e para baixo. Antes de voltar a minha atenção para a pedra encarei meu pai que forçou um sorriso assustado de incentivo, e minha mãe, que tinha o rosto banhado de lágrimas, balançou a cabeça me dizendo um “sim” sem palavras. Mais instrutores estavam parados atrás de meus pais, as faces sérias e apreensivas.
Voltei meu olhar para Andreo novamente, e confirmei que havia entendido o que me dissera, e me decidi. Ele soltou meus ombros e deu um passo para trás. Girei meu corpo na direção da pedra e caminhei ao seu encontro. Andreo acompanhou meu movimento ao meu ritmo, mantendo uma distância pequena entre nós.
Quanto mais perto chegava da pedra, mais forte a sensação de alegria se tornava, e por vezes tive que me segurar para não correr ao encontro dela. Quando estava bem próxima tive a percepção de seu tamanho, era pelo menos três vezes mais alta do que os meus um metro e setenta, estiquei o braço para cima e um pouco a minha frente, hesitei flexionando os dedos da mão erguida. Respirei fundo, fechei os olhos e toquei a pedra dracon.
Por um momento achei que nada tivesse acontecido, mas de repente algo começou a queimar dentro do meu estômago, e uma sensação de estar presa em uma caixa apertada me fez forçar a cabeça para cima. Lembrava-me o despertar de um sono profundo. Forcei um pouco mais, e um barulho de algo se partindo libertou-me da parede que me prendia. Estava escuro, e meus olhos lentamente foram se habituando à escuridão, as formas antes borradas, agora pareciam definir-se. Estiquei os braços para cima e fiquei de pé, o corpo estava rígido e dolorido, mas era uma dor suportável.
Quando tentei mudar os passos em direção ao único ponto levemente iluminado que era perceptível, foi que entendi o que estava acontecendo. Olhei para baixo e vi meus pais, com olhares de espanto e surpresa, os instrutores atrás deles estavam com a mesma impressão, incrédulos do que viam. E bem mais próximo de mim, estava Andreo.
Ele sorria, imensamente. Um olhar orgulhoso e gentil estava desenhado em suas feições. Depois de me encarar por alguns segundos, ele movimentou a cabeça para baixo, numa reverência, acompanhei seu movimento e vi meu corpo humano inerte em seus braços.
Os dragões eram os mecanismos aos quais os Deuses de Luz presentaram a humanidade como ferramenta de luta contra os Deuses da Escuridão. Essas duas forças sobrenaturais enfrentavam-se ao longo da história, desde os Primeiros Tempos.
Porém, os Deuses da Escuridão também presentearam os humanos seguidores de seus princípios com espécies avatares, que eram bem diferentes dos dragões alados. Eram criaturas monstruosas e gigantescas. Chegavam a alcançar cinco ou seis metros de altura, não podiam voar, mas eram extremamente fortes e velozes. Assemelhavam-se em estrutura física aos seres humanos, mas a pele grossa e escura lembrava um tronco consumido pelo fogo, seu rosto era todo marcado por cicatrizes grossas e proeminentes e a boca disforme, possuía o lábio inferior inchado, enquanto o lábio superior era fino, os dentes afiados eram sempre negros e exalava um odor de putrefação de todo o conjunto. Se sua aparência já causava medo e repugnância, o mais grotesco era o olhar de ódio, desprezo e morte que provinha de dessas criaturas. Eram chamados de Gnorks.
Nos últimos tempos os dragões estavam perdendo as batalhas travadas contra esses seres, havia um jovem rapaz que controlava o mais temível dos Gnorks, ele despertara o líder desses avatares, e assim como eu, nascera com a marca inversa. Quem decidia para onde as crianças marcadas deveriam ir, eram os próprios pais, de acordo com os princípios que cada família seguia.
A luta final se aproximava com os dois avatares líderes agora despertos, o destino dos humanos estava nas mãos dos marcados que comandavam esses líderes.
Quando acordei de volta ao meu corpo humano, Andreo e alguns outros instrutores estavam sentados em uma fileira semicircular aos pés da cama onde eu repousava, velando o meu sono. Meu instrutor, mais próximo de mim, segurava minha mão.
— Olá Olivia, como se sente? – ele me dirigiu um sorriso caloroso.
Andreo era um homem bonito, seus grandes olhos negros eram destaque no rosto sério e angular, tinha a boca fina que demonstrava ainda mais o respeito quando dela saiam frases duras. Os cabelos, escuros eram longos até a metade das costas e sempre estavam amarrados em uma tira de couro bem fina. Não devia ter mais do que trinta e cinco anos, mas sua sabedoria o tornava parecido a um ancião. Ele também havia nascido marcado, porém sua marca era na frente do corpo, a mesma linha vermelha escura saia das costelas do lado esquerdo e subia serpenteando pelo peito até terminar ao pé da orelha direita, marcando seu destino como instrutor, como a minha marcava a minha sina como controladora de dragões. Lembro-me da fascinação que me causou quando vi sua marca pela primeira vez, foi numa das aulas de mergulho. A vontade de tocá-la era involuntária, e foi difícil manter a concentração no que ele dizia. Independente do que eu era, o instinto feminino por vezes prevalecia, uma jovem de dezenove anos já tinha desejos e paixonites platônicas. E ele era um homem muito bonito e estava sempre comigo desde o meu primeiro dia naquela escola! Entretanto, sabia das regras de relacionamento impostas naquele ambiente, alguns instrutores até mantinham um relacionamento com outras instrutoras, porém a relação entre instrutor e aluno nunca poderia existir, o aluno já tinha sua relação firmada com seu avatar dragão.
— Estou bem, onde está Darian? – perguntei enquanto levantava-me, encostando-me a cabeceira da cama.
— Darian? Esse é o nome da sua dragonesa? – ele ficou de pé, e os outros instrutores acompanharam seu movimento aproximando-se um pouco mais.
— Sim, bem, foi o primeiro nome que me veio à mente, depois que saí da caverna, acho que ela gostou também. – falei um pouco sem jeito.
— Ela está na ilha, junto aos outros. Virá quando você a chamar.
A ilha era um pedaço de terra afastado alguns quilômetros de distância da escola. Era para lá que os dragões iam quando não estavam com seus controladores. Eles tinham consciência própria, comiam, brincavam, dormiam todos juntos nessa ilha, e quando um controlador precisava de seu avatar, ele era chamado pelo pensamento, e imediatamente abandonava seu recanto para atender o desejo de seu controlador. Alguns instrutores viviam na ilha e cuidavam dos dragões, suprindo suas necessidades de alimento e às vezes até curando algum ferimento conseguido em batalha ou acidentalmente.
— Olivia, você sabe o que vem agora, não sabe? – seu rosto sério condizia com suas palavras.
— Sei Andreo. – baixei os olhos para minhas mãos que agora estavam pousadas uma sobre a outra em meu colo – Quando vai começar?
— Ainda não sabemos, mas o movimento dos gnorks começou, eles estão atacando as cidades e vindo para cá em marcha, todos eles... – sua voz era cautelosa e receosa ao mesmo tempo.
— Quanto tempo ainda nos resta? – perguntei temendo a resposta.
Andreo olhou para traz procurando no rosto dos presentes um consentimento, como se precisasse de autorização para responder a minha pergunta. Todos consentiram.
— Menos de uma semana. – sua frase saiu num sussurro.
Por um momento pensei sobre suas palavras. O tempo era curto. Eu precisava de mais experiência no controle da dragonesa. Voar tinha sido fácil, porém, os movimentos das asas ainda eram um pouco descoordenados, controlar um avatar dragão era muito diferente do controle do corpo humano. Cada movimento tinha que ser pensado antes de ser feito.
— Mas Andreo, eu não sei qual é o dom da Darian. Controlá-la não é complicado, mais algumas incorporações e estarei prática nessa parte, mas não sei como liberar o poder dela! – o desespero e o medo de não ser a mente certa para a dragonesa me assustava.
— Tudo bem Olivia, fique calma. – Andreo voltou a pegar uma das minhas mãos, seu toque quente e forte, me fez sentir segura – Treinaremos o quanto for possível, sua conexão com a dragonesa...
— Darian. – eu interrompi.
— Certo, sua conexão com a Darian é nova e precisa mesmo de um pouco mais de experiência, quando conseguir dominá-la...
— Não consigo. – novamente precisei interromper.
— O que você quer dizer com “não consigo”? – sua voz soou preocupada, sua mão fez uma leve pressão na minha, e os outros instrutores se entreolharam num questionamento mudo e encararam-me esperando explicações.
— Olha, não sei como isso funciona, de tudo o que aprendi sobre os dragões, sobre a incorporação, sobre cada detalhe que você me forçou a entender... – sorri e ele retribuiu como se estivesse se desculpando – Nada se compara com a conexão que tenho com a Darian.
— Não estou entendendo Olivia. – a expressão de confusão expressa em seu rosto era marcada pela pequena ruga criada entre as sobrancelhas quando ele tentou uni-las.
— Ela tem opinião própria Andreo, quando me comunico com ela impondo alguma decisão ela se recusa a me obedecer, mas quando peço educadamente ela o faz com maestria. – respirei fundo e continuei – Quando estávamos voando, eu podia conversar com ela, soa estranho eu sei, mas ela me instruía a fazer os movimentos certos que agilizavam o voo, e quando perguntei sobre seu dom, me disse que eu saberia usá-lo no momento certo, apenas isso. Parece que é uma mente, dentro da minha mente, quando estou no corpo dela, entende?
— Isso é incrível! – Andreo estava entusiasmado com o que ouvia – Ela não te obedece?
— Não, não é isso. – pensei melhor em como explicar – Ela faz o que peço não o que mando! E quando faço um pedido, que pode não ser a melhor opção, ela procura convencer-me de que há alternativas a considerar. Ela pensa! E mesmo eu estando aqui deitada nessa cama e ela lá na ilha, sei quais são suas emoções, no momento ela está meio zangada com outro dragão, parece que ele quis tomar uma parte de sua comida, ela teve que afrontá-lo e ele não se saiu muito bem no final. É como se ela tivesse sua própria alma incorporada, e apenas me cedesse um espaço para que eu possa entrar, compreende?
Procurei seus olhos e vi uma confusão de sentimentos neles. Sua boca meio aberta denunciava o espanto que minhas palavras proporcionaram a ele. Tudo o que existia sobre os avatares dragões, sua história, suas informações passadas de geração em geração agora eram contraditas por uma garota de dezenove anos. Não havia nenhum relato ou documento parecido com o que eu acabara de dizer, desde os primeiros tempos.
 Andreo olhou para os outros instrutores, e suas feições eram idênticas. Nenhum deles falou nada, como nunca falavam, os instrutores dirigiam-se única e exclusivamente a seus protegidos, mas podiam conversar entre si pela força do pensamento.
Após alguns instantes dessa conversa muda, ele sentou-se na cama onde eu estava e segurou minhas mãos entre as suas. Com um olhar agora sereno e tranquilizador ele disse:
— Olivia, ninguém aqui tem dúvidas do quanto a Darian é especial, você sabe da história, e também acreditamos que você é a escolhida dela. Dessa vez não foi o humano que escolheu o dragão, e sim o dragão que escolheu o humano. – ele respirou fundo, dando-me alguns segundos para assimilar suas palavras – E você é o ser humano especial escolhido por ela. O elo, a conexão entre vocês duas é forte e se fez muito mais rápido do que qualquer outro, o que me leva a afirmar que Darian é a Rainha dos Dragões, enviada pelos Deuses de Luz, e você é a Rainha dos Humanos, que reforça o nosso elo com os avatares.
Ao terminar de dizer essas palavras, todos os instrutores que estavam no quarto postaram um dos joelhos no chão, cruzaram as mãos sobre o peito e baixaram a cabeça em sinal de reverência. Ele soltou minhas mãos no colo suavemente e também fez o mesmo movimento. Sem abrir a boca para proferir qualquer palavra, todos os eles, até os que não estavam presentes, em uníssono clamaram:
“Olivia Drache, Rainha dos Humanos, escolhida de Darian, a Rainha dos Dragões, por vós serviremos e lutaremos pela paz em nosso mundo, a protegê-las e a cumprir vossas intenções”.
Andreo ergueu a cabeça, olhou-me profundamente e perguntou ainda em pensamento:
“Ouviu-nos?”
“Sim” – respondi sem palavras, sentindo o coração aos saltos dentro do peito.
“Olivia Drache, você é especial!”
Eu não sabia o que responder, ainda estava entorpecida com o que acabara de presenciar, enfim consegui pensar no que de mais urgente era para todos que depositavam em mim tamanha confiança naquele momento:
“Preciso ir ver Darian, ela me espera.”
Toda a escola era uma construção circular, com inúmeras salas e laboratórios. No centro dessa formação circular, havia uma torre alta com o teto plano. Não era permitido aos alunos o acesso a essa torre, antes que eles tivessem despertado seu avatar. Uma longa escada em espiral levava até o topo da torre. Antes, porém, havia um andar amplo que interrompia a subida das escadas. Nesse andar estavam disposta diversas macas, eram leitos simples, com um travesseiro e um lençol apenas, ao lado de cada maca uma cadeira. Algumas estavam ocupadas pelos controladores dos avatares, incorporados, enquanto seus instrutores velavam seu repouso silencioso.
Andreo acompanhava-me, e após alguns instantes de minha analise curiosa, indicou-me o recomeço da escadaria, que nos levaria ao topo da torre.
A visão de lá de cima era magnifica. O mar azul banhava toda a costa, onde a escola estava, e quebrava suas ondas nos muros altos que a rodeavam e, no lado oposto, a densa floresta verde também impunha sua beleza. Além da floresta era possível ver algumas cores terrosas e avermelhadas, que indicavam a aldeia mais próxima.
Percebi depois de um momento de deslumbramento, um grande dragão negro, que se mantinha bem ao limite da torre. Suas asas estavam fechadas e tinha a cabeça abaixada. Junto dele, um rapaz conversava com seu instrutor. Fiz menção de aproximar-me, mas Andreo segurou-me pelo braço: ”Espere”.
Não ousei me mover, contra a minha vontade. O rapaz percebeu nossa presença e olhou-nos, seu instrutor fez o mesmo e ambos abaixaram a cabeça por alguns instantes, e o rapaz voltou seu corpo para o dragão.
Olhei para o grande avatar negro, que abaixou a cabeça um pouco mais, o jovem respirou fundo e esticou a mão para o dragão, e este por sua vez, diminuiu a distância entre eles inclinando o grande pescoço para frente e tocando com o focinho a pequena mão do controlador. Imediatamente o corpo do rapaz desvaneceu-se inerte, mas não chegou a tocar o chão. Seu instrutor o amparou nos braços, olhou fixamente para o dragão e ambos se cumprimentaram. O instrutor deu as costas ao grande avatar negro, caminhando firmemente com o corpo de seu aluno nos braços na direção que estávamos. O dragão abriu as asas, esticou o pescoço e jogou-se para trás, ainda pude ver sua cauda chicotear o vazio, enquanto ele despencava do topo da torre.
— Não! – gritei tarde de mais. Corri para onde o dragão estava antes, mas não cheguei ao final, o imenso dragão negro, surgiu de repente, rasgando o vento e subindo alto no céu sombrio, depois mergulhou novamente na densa floresta. Andreo encarava-me sorrindo, talvez da minha estupidez em pensar que um dragão alado, fosse realmente cair daquela altura.
— Pra onde ele foi? – perguntei ainda um pouco constrangida.
— Sobrevoar a floresta e algumas aldeias da região. – Sua voz rouca demonstrava preocupação.
— Entendi, foi checar o andamento dos gnorks não é mesmo? – eu já sabia a resposta.
Andreo apenas confirmou com a cabeça, encerrando o assunto.
— E agora o que eu faço? Como chamo a Darian? – perguntei colocando as mãos na cintura e olhando para todos os lados.
— Pense nela, convide-a.
Insegura, fechei os olhos, respirei fundo e pensei: “Darian, por favor, venha até mim”.
Voltei a abrir os olhos e esperei. Passados alguns momentos de silêncio, dei as costas ao meu instrutor, evitando que ele visse a dúvida estampada em minha face. “Será que a chamei de maneira correta?”.
Um barulho de bater de asas começou a responder meus temores. E entre nuvens claras a grande dragonesa surgiu. O impacto da imagem de Darian chegando manteve meus olhos vidrados nela. A dragonesa era quase duas vezes maior do que o dragão negro que estivera a pouco sobre aquela mesma torre. Darian era albina, branca como nuvens em dias de verão. Quando os raios de sol batiam em certas partes do seu corpo, coberto de minúsculas escamas, um reflexo multicolorido reincidia de volta. Se houvesse algum outro ser humano, animal ou até mesmo um Deus de Luz mais belo do que aquele avatar, era impossível dizer.
Ela parou suavemente no ar e aos poucos pousou sobre a torre, no mesmo lugar que antes estivera o dragão negro. Caminhei ao seu encontro, muda de palavras e pensamentos. Andreo seguiu-me de perto. Darian abaixou sua enorme cabeça até quase a minha altura, e olhando-me fixamente, com grandes pérolas negras no lugar dos olhos, soltou um chiado estridente. Andreo se encolheu, mas entendi suas palavras naquele barulho ardido.
“Olivia Drache, precisamos estar em sintonia, o tempo é curto e temos que organizar todos os seres para o encontro derradeiro”.
“Sim Darian”. – respondi mecanicamente.
Ergui a mão esquerda para ela, que entendendo minha intenção, abaixou um pouco mais e tocou-me com o lado esquerdo de sua face. No mesmo instante o foco da minha visão mudou, agora enxergava com os olhos da dragonesa. Meu corpo humano desfalecido sucumbia nos braços de Andreo.
“Podes me ouvir?” – perguntei sem palavras, focando seu rosto.
“Sim, minha rainha”. – seu semblante sério demonstrava a grande admiração que sentia frente à dragonesa albina.
“Por favor, continue a me chamar de Olivia, se podemos manter essa comunicação, mesmo eu estando no corpo da Darian, então tudo que eu e ela fizermos e for de interesse para nossa missão, estarei compartilhando com você. Peço que retransmita aos outros instrutores”.
“Sim, Olivia”. – Um sorriso carinhoso brotou em seu rosto.
“Vamos Darian”. – E juntas, eu e a dragonesa branca inclinamos levemente a cabeça despedindo-nos, e jogamos o corpo que agora dividíamos para trás, mergulhando no vazio, para logo em seguida alçar voo sobre a densa floresta.
Depois de um tempo sobrevoando a imensa mancha verde, percebi que todos os movimentos eram involuntários, era Darian quem conduzia o corpo do avatar. Não pude manter o silencio por mais tempo.
“Darian, o que vai acontecer?”.
“Teremos que lutar Olivia. Para reestabelecer a paz a esse mundo, tão atormentado pela discórdia plantada pelos Deuses da Escuridão, somente o extermínio de seus representantes pode trazer a harmonia há tempos almejada por vocês humana, e pelos Deuses de Luz, a esse planeta”.
“Mas a guerra significa a morte”. – Era difícil pensar em paz, sem trazer a imagem de dor e sofrimento antes.
“Sim, muitos cairão, mas não vale a pena tentar buscar a harmonia entre os seres viventes ao invés de existir temendo um novo ataque de maldade?” – Darian falava como se estivesse tentando me convencer do inevitável.
“Pensando dessa maneira, concordo com você”. – Ela tinha razão.
Por um tempo o silêncio predominou entre nós, sabíamos que ambas pensavam no que foi dito, mas a reflexão sobre o tema já estava firmada em nossas mentes.
Tentando fugir do assunto, lembrei-me de uma questão que em algum momento fiz ao meu instrutor, o qual me respondeu apenas vagamente.
“Darian, porque os instrutores não podem ter um avatar dragão?”- eles eram mais experientes, conheciam a historia e as lendas desde os primeiros tempos, e bem mais afundo do que os jovens controladores.
“E quem instituiu que eles não podem ter um avatar?”. – seu tom era estranho.
“Ora, nunca nenhum deles tiveram! Eles apenas nos treinam, acho que é uma regra antiga”. – Falei sem tato nenhum.
“Uma regra antiga, criada por humanos antigos, que não souberam interpretar as marcas dos Deuses de Luz corretamente”. - Ela falava em minha mente com o mesmo tom que Andreo usava quando queria me explicar algo óbvio.
“Não compreendo” – pensei.
“A diferença está somente nas marcas Olivia, você pode incorporar um dragão e coordená-lo a sua vontade, sua marca é atrás, nas costas...”. – Ela parou de falar forçando-me a solucionar o enigma.
“Quer dizer, que Andreo e os outros instrutores que têm a marca na frente...”. – parei esperando que ela concluísse o que já estava claro pra mim.
“Podem cavalgar os avatares dragões, e coordená-los também, com a força do pensamento”.
No mesmo instante, abri minha mente fazendo uma ponte de ligação com os pensamentos de Andreo. Ele relutou em aceitar tal revelação e somente concordou em deixar meu corpo humano, depois que mentalmente ordenei que ele o fizesse.
Quando Darian voltou para torre, comigo ainda incorporada, encontramos Andreo com um grande avatar dragão a nossa espera. Ele havia seguido minhas instruções e fora até a caverna, lá encontrara a pedra dracon que o chamava e Zmaj, um imponente dragão cinza escuro, com mesclas negras na cauda nascera para ser avatar do meu instrutor.
Em pouco tempo estavam em sintonia. E a expressão de Andreo não era outra que não de maravilhado com o fato que ocorrera.
Darian e Zmaj deixaram a torre, e quando comecei a recobrar a consciência ao voltar ao corpo humano, vi meu instrutor correndo as escadas abaixo em minha direção.
Sentei-me e esperei que ele chegasse. Quase fiquei sem ar quando ele me abraçou forte e ergueu-me da cama rodopiando. Precisei respirar fundo quando ele me devolveu ao leito, era forte e naquele momento deveria ter se esquecido desse detalhe.
— Devagar Andreo, assim você me deixa sem ar... – acusei-o.
— Desculpe-me, desculpe-me. Nunca imaginei passar por esse fenômeno. Por muito tempo desejei que minha marca fosse atrás, invejava vocês controladores, mas hoje sei que não há sensação melhor nesse mundo do que montar um avatar dragão, e falar com ele em pensamento é estupendo! Agradeço aos Deuses de Luz por essa dádiva! – Suas palavras saiam aos tropeços.
— E a Darian, por revelar-nos esse fato. – lembrei-o.
— Sim! E a você também! – ele concluiu.
— Não, a mim não, foi Darian... – não terminei de falar o que tinha em mente. Ele me olhava de cima, com o rosto mudado, sério e decidido.
Perdi a razão do que ia dizer, a paixonite antiga apertou fundo no peito, ao perceber aquele rosto que eu conhecia desde a tenra idade, encarando-me com olhos diferentes, olhos que nunca vi me olharem assim.
Andreo abaixou-se até ficar na altura do meu rosto mantendo-me presa em seus olhos. Inclinou a cabeça levemente para o lado e seus olhos saíram dos meus e foram para a minha boca, e antes que pudesse definir se aquele momento era sonho ou realidade, ele me beijou.
Simples e rápido. Mas balançou minhas estruturas. Se ele ao menos soubesse o quanto eu o admirava desde o primeiro dia em que o vi, e de como pedi aos Deuses de Luz para que ele fosse meu instrutor, e de como me esforçava ao limite das minhas forças para não decepcioná-lo, e o quanto me fazia doer essa mesma alma que voava com a grande dragonesa branca, quando via em seu rosto a frustração por não conseguir me fazer entender ou acompanhar determinado assunto.
Silente de palavras e pensamentos fiquei estática. Ele adiantou-se em socorrer-me:
— Se uma lei tão poderosa, quanto à de que os instrutores nunca poderiam controlar um avatar dragão fora destruída, muitas outras também poderão. Ao menos modificadas elas deverão ser.
Meu coração deu um salto. Entendi o que queria dizer.
— Sim! – afirmei – Serão modificadas!
Peguei uma de suas mãos e entrelacei a minha. Levei as costas da mão dele aos lábios e beijei, voltei a encará-lo e juntos sorrimos um para o outro com a possibilidade se abrindo a nossa frente.
Mas o momento terno e romântico durou pouco.
Ambos sentimos o choque da imagem que invadiu nossas mentes ao mesmo tempo. O grande dragão negro que havia partido, agora regressava, e o instrutor de seu controlador relatava com imagens assustadoras o que ambos tinham visto na última aldeia.
Um grande exército de gnorks se aproximava, já estavam no limite da floresta que nos cercava. Seu avanço era progressivo e não tardariam a chegar. Por algum tempo ficamos absorvendo aquelas imagens, sem saber como agir. Algo se rompeu em minha mente, como um choque me tirando do estado catatônico. Levantei-me da cama num átimo e ainda segurando a mão de Andreo, fechei os olhos e comecei a dar ordens em pensamento.
“Todos os instrutores devem ir à caverna dos dragões imediatamente, e cada um despertará seu avatar”.
A incredulidade por parte dos outros instrutores voltava até mim em ondas de pensamento. Adiantei-me às perguntas que viriam e prossegui:
“É possível, Andreo mostre a eles”.
Ele então mostrou como, seguindo minhas instruções, conseguiu despertar um avatar.
“Mas Senhora, os controladores não podem ficar sozinhos” – disse um instrutor, com um tom de repreensão direcionado a Andreo por ter feito isso.
“Todos os controladores devem vir para a torre, os alunos que ainda não têm seu avatar deverão vir também, eles guardaram os controladores, e os instrutores, sem exceção devem ir para a caverna imediatamente, sejam gentis com seus avatares e cada um deles deve ter um nome”.
“Sim, Senhora”. – ouvi um eco enquanto todos respondiam ao mesmo tempo.
Apertei a mão de Andreo, que voltou seu rosto para mim e sorriu.
— Você coordenará a frente dos dragões montados, Darian e eu ficamos com os avatares controlados.
— Mas, Olivia, não posso deixar seu corpo humano! – sua voz carregada de preocupação.
— Pode e vai deixar! – falei firme – Preciso de você lá fora voando ao meu lado. Os alunos cuidarão de nossos corpos. Muitas leis serão modificadas lembra-se? – ele não ia mais argumentar.
— Sim, mas me deixe leva-la a Darian então e depois trazer seu corpo de volta, ao menos isso me deixe fazer.
— Certo, então vamos. – Concordei.
Já estava em curso para chegar às escadas quando ele me puxou fazendo meu corpo bater contra o seu violentamente. Uma de suas mãos agarrou minha cintura e me apertou para mais perto dele, a outra encontrou minha nuca, e antes que eu pudesse pensar em respirar sequer, Andreo me beijou novamente. Dessa vez foi diferente, foi um beijo apressado e forte, doce e cheio de paixão. Um beijo, como se fosse o ultimo, como se o amanhã não fosse existir, e eu me entreguei àquela reação forçando mais e mais para perto dele, querendo sorver daquele momento todo o passado e futuro que poderíamos ter.
Em pouco tempo o céu estava pintado de avatares dragões. Todos enfileirados ordenadamente, e ao comando de Darian começaram a formar grupos distintos de dez em dez, sendo que cada grupo possuía pelo menos um dragão montado. Avançamos por sobre a floresta, e logo encontramos a grande orla marcada pela cor laranja das tochas de fogo que o exército trazia. Uma diferença entre os controladores de dragões e os controladores de gnorks, era a de que o gigante monstruoso tinha que trazer seu controlador sempre por perto. Não havia a incorporação mental, mas um tipo de hipnose que o controlador exercia sobre a fera e a distância impedia o repasse das ordens de maneira correta.
Eram incalculáveis o número de gigantes, e quando perceberam nossa aproximação pararam de avançar. Darian e eu seguíamos a frente de um grupo, mantendo os outros bem próximos, como se fosse uma massa única sem separação.
Quando estávamos sobre eles uma flecha com cerca de um metro incendiada cortou o céu a nossa frente subindo em linha reta, e atrás dela, milhares de outras pontas em chamas seguiram seu caminho.
Darian gritou em sua voz de dragão, e os grupos se organizaram e se dividiram desfazendo a massa escura, alguns mergulharam, outros seguiam em frente, e uma grande parte se dividiu fazendo uma investida lateral, a intenção era formar um cerco em volta das criaturas.
Uma nova rajada de flechas subiu a altura que estávamos e acertou um dos dragões incorporados do nosso grupo, e todos os outros que já estavam em posições pré-definidas mergulharam numa investida poderosa.
Cada dragão escolhia seu adversário e direcionava a ele seu melhor ataque. Eles cuspiam fogo ou gelo, e quando o alvo era acertado, as criaturas e seus controladores ardiam em chamas negras, ou endureciam no frio extremo até se partirem.
Gritos e grunhidos de raiva e dor era a voz daquele encontro. Caiam gnorks e caiam dragões. No chão a vantagem incontestável era das criaturas monstruosas, eles eram mais fortes e mais rápidos do que os dragões.
Após algum tempo de busca, Darian encontrou o líder que se mantinha no meio do exército, de lá dava ordens e atacava ao mesmo tempo. A grande dragonesa branca posicionou-se para a investida, e antes de mergulhar para o ataque, instruiu os outros membros do grupo, inclusive Andreo que montava Zmaj, de que eles deveriam cuidar dos seres que o cercavam.
Andreo retirou uma flecha da aljava presa ás costas, posicionou-a no arco que trazia na outra mão e mergulhou.
Darian sentiu minha agonia ao vê-lo jogar-se com Zmaj no meio daquela tormenta.
“Olivia, esse é o momento de descobrir do que você é capaz, é agora que você precisa liberar o seu dom”.
“Mas Darian, quem tem o dom é você! Não eu! E não sei como fazer isso!”. – as palavras da dragonesa me apavoraram.
“Não minha querida, o dom é você! É a sua força que move cada um dos enviados da Luz aqui nesse momento”.
“E como eu faço isso?” – perguntei incrédula do que ela dizia.
“Pense no que queria que acontecesse nesse momento”. – ela virou as asas num ângulo que fez com que nosso corpo subisse.
“Eu queria que essa guerra terminasse”. – respondi com força, tentando fazer com que minhas palavras mudas fossem ouvidas por todos os seres presentes.
“Então faça!”
Darian grunhiu e mergulhou. Deixei que ela comandasse o corpo do avatar fechei os olhos e gritei dentro de mim com toda força que imaginei ter, com o imenso desejo de por fim aquele evento apocalíptico. Quando abri os olhos, e vi pelos olhos negros da dragonesa, identifiquei Andreo em seu dragão ainda em curso de mergulho. No ultimo instante ele guinou para a esquerda e acertou uma flecha na testa de uma criatura que caiu, enquanto Zmaj cuspia fogo em dois outros gnorks ali próximos.
A nossa frente surgiu o grande líder. E assim que percebeu nossa presença, ele sorriu. Foi um sorriso de deboche, de ironia. Aquele sorriso incendiou meu pensamento, a raiva tomou conta da minha mente e passou para Darian, que sentindo toda aquela transformação, empenhou-se em voar mais rápido em direção ao gigante.
Quando a distância tornou-se favorável, Darian abriu a boca e eu gritei a raiva que me consumia.
Pura energia saiu da boca da dragonesa. Energia branca, como um relâmpago cruzando o céu em dia de tempestade. O grande gnork recebeu toda a descarga no peito, seu sorriso dera lugar ao espanto, seus olhos encaravam a dragonesa e a mim, incrédulos daquele artifício. Seu controlador escondido sobre seus pés tinha a mesma expressão.
Darian subiu, deu meia volta no ar e mergulhou em novo ataque. Canalizou a energia, que agora saia sem esforço algum, em jato denso e continuo novamente para o peito da criatura. Pedaços do seu corpo começaram a cair ao chão, como se estivesse derretendo. E nesse mesmo mergulho, quando Darian chegou bem perto, com uma de suas garras traseiras agarrou a cabeça do gigante, que se desprendeu do corpo facilmente, enquanto arremetia e subia aos céus novamente.
Não percebi quando ela soltou a cabeça do gigante, mas quando parou no ar e juntas olhamos para baixo, não vimos mais nenhuma parte do líder Gnork. Essa perda desestabilizou o exército inimigo, e a investida dos dragões ganhou força. Andreo e Zmaj continuavam atacando os gnorks que protegiam o líder.
            Darian de repente mergulhou tão rápida, que não percebi seus pensamentos, descendo em espiral foi caindo e quando estava bem próxima do chão empinou o corpo para o lado e bateu nas costas de outro dragão, no mesmo instante que algo quente e pontiagudo atravessou-lhe o peito.
A dor causticante impediu-nos de controlar o grande corpo alado, e caímos juntas sobre algumas arvores.
“Darian?” – gritei em pensamento.
“Está tudo bem Olivia, foi uma flecha”. – ela ofegava e a cada inspiração o ar cortava-nos por dentro.
“Andreo!!!” – gritei em pensamento, não conseguia ver os estragos que a flecha causara, mas sentia-o tanto quanto ela.
Ele chegou logo, pulou do dragão cinza antes que o mesmo tocasse e chão.
“Andreo, você deve retirar a flecha” – Darian dizia calmamente, mas eu sentia a dor. Ela abriu a asa que escondia o ferimento. Pelos olhos de Darian vi o choque no rosto no meu instrutor.
Sem pensar nas opções, ele segurou a flecha com as duas mãos, posicionou o corpo e puxou. Darian guinchou e eu gritei.
“Andreo, vou voltar para a ilha, vá buscar Olivia e a leve até mim, o mais rápido que puder”. – ela falava com ele, como se eu não estivesse mais ali, mas eu estava.
“Darian, estou aqui com você” – falei tentando esconder a dor lascinante que também sentia.
 “Olivia, você deve voltar para seu corpo humano agora”.
“Não Darian, vou ficar com você!” - disse com a voz embargada.
Ela ignorou meu comentário e voltou a falar com Andreo:
“Andreo, Olivia e eu fizemos uma conexão além da mente, quando ela despertar no corpo humano ainda sentirá as minhas dores. Leve-a imediatamente para a ilha”.
“Sim minha rainha”. – disse Andreo já se retirando e voltando a montar em seu avatar dragão.
“Agora você, Olivia, desperte no seu corpo humano”. – era uma ordem.
“Não Darian, por favor...” – eu queria ficar com ela, tinha medo que não conseguisse chegar até a ilha por causa da dor.
“Agora!”. – ela gritou com voz de Rainha dos Dragões.
Despertei no corpo humano. Meu peito doía, a mesma dor da dragonesa possuía meu corpo e aumentava a cada instante. Encolhi-me sobre o tronco apertando o peito, e o rosto agora queimava com as lágrimas incontroláveis. Um toque quente em meus braços me fez abrir os olhos. Andreo em pé ao lado da minha cama tinha o rosto sério e preocupado. Quando o vi, joguei-me em seus braços, apertando-o contra mim, como se aquele abraço pudesse diminuir a agoniante dor que sentia.
Sem dizer palavra alguma, ele juntou-me em seu colo e começou a subir as escadas para o topo da torre. Zmaj já esperava, e assim que subimos em suas costas, a voz do dragão cinza soou em minha mente:
“Aguente Rainha dos Humanos, logo estaremos com ela”.
Andreo ajeitou-me o melhor que pode sobre seu colo, mantendo um braço firme em minhas costas, apertando-me contra seu peito.
“Zmaj, vamos!”.
E o grande dragão cinza ganhou os céus novamente.
O corpo de Darian estava caído sobre a praia da ilha. Alguns dragões e instrutores cercavam-na com o pesar estampado em cada face. Andreo aproximou-se, comigo em seus braços, seu rosto sério, talvez pelo esforço em me carregar, talvez ciente da dor que afligia a dragonesa e a mim. Postou-me ao seu lado, perto de sua cabeça, e manteve o peito apoiando minhas costas enquanto seus braços circundavam minha cintura. A dor extrema pulsava dentro de mim, incapacitando-me tanto quanto a ela.
— Darian... - falei aos sussurros, as lágrimas turvavam minha visão, e por mais que as limpassem com as costas das mãos, elas insistiam em cair descontroladamente. E na voz sem palavras, na voz do pensamento que era ouvida agora por todos e sentida em cada intimo dos seres humanos e dragões ela falou:
“Rainha dos Humanos minha tarefa está cumprida, o seu mundo agora terá paz, chegou o momento de minha alma regressar ao mundo dos Deuses de Luz.”
“Não Darian!” – gritei em silêncio mudo, percebi que Andreo se encolheu um pouco e me apertou suavemente em seus braços – “Por favor, não vá, preciso de você, todos nós precisamos de você!”.
“Não minha amiga, não precisa mais de mim, você é capaz de conduzir essa nova era sozinha, tens amigos humanos e dragões, que lhe serão caros e a ajudarão a manter a harmonia agora conquistada” – ela parou por um momento, enquanto inspirava um pouco de ar, a dor por esse movimento, me fez encolher e fechar os olhos para não gritar – “Nossa ligação sempre se manterá, e quando precisar de mim, estarei com você em seus sonhos, qualquer outro avatar dragão poderá ser seu companheiro, suas habilidades energéticas, e a de seus herdeiros, manterá a união entre as espécies”.
Eu queria argumentar, pedir e implorar para que ela fosse forte, mas não tinha as palavras certas para isso, Darian estava se despedindo.
“Andreo” – Darian dirigiu-se a ele – “Agora você é o responsável por proteger, zelar e caminhar ao lado de Olivia. Seu amor é a força de que ela precisa para continuar. Esteja sempre ao seu lado, não a desampare, e não a deixe esquecer-se do quão especial ela é, e de sua importância para o seu mundo”.
“Sim Rainha dos Dragões, prometo não deixá-la por nenhum momento da minha existência, prometo protegê-la com a minha vida se for necessário!” – me encolhi um pouco quando ouvi seu juramento, ele sentiu minha angústia, apertou-me um pouco mais contra seu peito enquanto tocava o topo da minha cabeça com os lábios.
“Darian, obrigada por tudo que me ensinou.” – o nó formado em minha garganta quase impedia a passagem de ar – “Eu amo você para sempre...”.
“Eu sei minha rainha, um dia estaremos juntas novamente. Você é parte de mim, e eu sou parte de você! Agora devo partir.”
Não consegui mais pensar em nada, a dor de Darian havia chegado ao auge. Com esforço e ajuda de Andreo, encostei o rosto em seu pescoço e enlacei uma pequena parte dele com os braços, o choro preso agora fluía descontroladamente, meu corpo tremia em ondas de desespero, e todos ali sentiram aquela dolorosa separação. Darian voltou sua cabeça para trás e pousou-a em meu colo, eu a abracei com força e ouvi quando ela deu seu último suspiro e partiu.
Nesse momento a dor física de Darian parou de me afligir, mas a dor emocional pela perda ainda massacrava meu peito.
Aos poucos o corpo da grande dragonesa branca foi ficando transparente, cada parte daquele ser magnífico transformou-se em faíscas multicoloridas, milhares delas, e começaram a subir rodopiando numa dança comandada pelo vento, e então elas se juntaram novamente sobre nós formando uma constelação de estrelas coloridas e brilhantes, que deram forma a Rainha dos Dragões.
Subiu alto no céu, batendo suas enormes asas, e quando atingiu certa altitude, uma explosão sem barulho fez o corpo desfazer-se novamente. Suas facetas coloridas começaram a cair velozmente em nossa direção. Darian dividiu-se e adentrou o coração de todos os humanos e dragões presentes, fazendo-nos sentir sua força e suas emoções, ela estava feliz.
Andreo me abraçava forte, seus olhos brilhavam em contemplação a tudo o que acontecera ali. Com delicadeza ele me levantou do chão de areia nos braços, abracei-o forte enquanto ele apoiava a cabeça em meu ombro, retribuindo meu abraço. Soltei-o e encaixei a minha cabeça entre seu ombro e queixo, meu rosto ainda banhado de lagrimas, agora serenava aos poucos, a dor havia passado, mas o corpo físico estava fraco e cansado.
Ele beijou minha testa, e depois meus lábios levemente. “Vamos para casa.” Concordei mentalmente, Andreo se aproximou de Zmaj, que imediatamente se pôs ao chão, subimos em suas costas, ele aconchegou-me junto a seu peito, e com uma das mãos segurou as rédeas do avatar. Em pensamento e delicadamente pediu:
“Zmaj, por favor, nos leve para casa”.
E o grande dragão cinza abriu suas asas e alçou voo o mais sutil quanto fosse possível. Os outros instrutores e dragões fizeram o mesmo.
Segura nos braços de Andreo, eu começava a entender realmente tudo o que se passava, e a aceitar meu destino, marcado desde o dia do meu nascimento, por uma serpente vermelha desenhada na pele.




Lu. Franzin.
Junho / 2012
BN - 571.203

14 comentários:

  1. A Lu pediu para eu falar a verdade. Rsrsrsr
    E pelo que mim parece eu já estou apaixonada pelo Andreo. rsrsrsr

    Lu, eu não entendo não sou muito fã deste tipo de leitura,mas... sempre tem o mas... né! rsrsrs Procuro ler de tudo um pouco para saber realmente o que gosto de verdade.

    Digamos que é super interessante e lindo, afinal o amor é lindo. Não sei se é impressão minha mas sentir que em certas partes a história ficou faltando alguma explicação. Não sei dizer o que. Mas parece que você deixou algo passar despercebido, mas o fato é: É que esta muito bom.

    Parabéns Flor!

    Eu te gosto muito!

    Super Beijokas de sua FÃ número 1.

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    1. Fer sabe qual foi o meu grande problema?? Eu tinha um limite! Um limite de palavras e de páginas...e Juro, isso acaba comigo!!! ...rs... Se deixasse eu teria ido muito mais longe...quem sabe? E eu também não sabia quase nada do mundo dos dragões... Aí junto o certo e o duvidoso e deu A Marca...rs...

      Muito, mas muito grata por sua opinião!

      Lu. Franzin

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    2. É sempre um prazer, falar sobre pessoas sabias como você.
      E sinto muito por você ser obrigada a este "limite". rsrsrsrs

      Mas, esta muito bom e falo isso, não porque vc se transformou na minha primeira amiga virtual, mas porque é verdade.

      Super Beijokas e continuei escrevendo, porque quero ler tudo.

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  2. Ahhhhhh Lu, achei lindo!
    Quando cheguei no final só queria saber de mais e mais!
    Ficou muito bom, quando que lançará seu livro de contos????
    Quero ser a primmeira viu!
    Gostei muito, está de parabéns. Bota mais! Bota mais! senão eu grito! :O
    beijos
    Blog Leitura de Ouro

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  3. Minha linda!!! Obrigada...rs...

    Nossa um livro de contos? Eu estou escrevendo um romancesinho...rs... Mas vou pensar a respeito...rs...

    Bjo!!!
    Independente, quando eu conseguir lançar o primeiro (por que eu vou, cedo ou tarde!) Vc com toda certeza será uma das primeiras!!!
    Obrigada ... De novo!!

    Bjo!

    Lu. Franzin

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    1. Muito bem Lu, ela será uma das primeiras, porque EU vou ser a primeira. rsrsrsrsrsr

      Pessoa convencida EU né?.

      rsrsrsr

      Beijokas!

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    2. Pode parar com isso, vou puxar seu cabelo se interferir e
      chamar sua mãe!
      kkkk

      Lu vai dá briga heim kkk

      beijinhos !!!

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  4. Kkk.... Não, não, não...Briga não!!! Vou fazer o seguinte: Assim que sair posto para as duas ao mesmo tempo! E prometo mandar uma cópia do comprovante de envio assim que estiver em mão....

    Obrigada pela carinho meninas!!!

    Bjo!!!!

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  5. Lu que conto mais lindo! Bem escrito e de tirar o fôlego!
    De verdade sem palavras...

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  6. Onde consigo mais dessa estória cativante? *w* ~

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    1. Own...

      Obrigada... Emocionada...rs...

      Lu. Franzin

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  7. Lu que coisa linda.
    Não tinha visto ainda.
    Você escreve tão bem.
    Eu adoro histórias de dragões, nem preciso dizer que fiquei encantada, né?!? rs
    Beijinhos!
    http://fulanaleitora.blogspot.com.br

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  8. Kezia Obrigada!

    Estou pensando em criar alguma coisa maior com esses mesmos seres encantadores...

    Vamos ver...rs...

    Bjo!!

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